Desapega

Tive um relacionamento durante 2016. Ele nunca chamou isso de relacionamento, mas para mim foi. E foi importante. Muito importante. Daquelas coisas que eu só tinha sentido uma vez na vida.

Mas não podemos fazer o outro sentir o mesmo que a gente. Ficávamos juntos todas as semanas. Conversávamos todos os dias. Íamos ao cinema, falávamos de política, de gatos, de problemas familiares. Eu cheguei a dizer “eu te amo” para o vazio. E cada vez que eu fazia isso doía. Doía muito.

Eu sabia que doía e me segurava de todas as formas. Todo dia prometia mandar menos mensagens, falar menos. No final do ano passado ele começou a ficar mais frio, se distanciar. Entrei em pânico e encostei ele na parede. Ele terminou tudo. Eu fiquei chorando no canto do quarto como se o mundo tivesse acabado.

Mas não desisti. Não ainda. Eu tinha o que fazer, poderia fazer algo. Pesquisei sobre relacionamentos, o tipo de pessoa que ele era. Eu só queria convencê-lo de que eu era a melhor opção. Mandei textões, tentei sumir, tentei fingir que não amava mais. No auge arrumei outro cara, namorei por três meses. E conheci um monte de outros caras no caminho.

Mas só doía mais. E mais. Não a mesma dor do início, mas uma dor que parecia masoquismo. Eu sabia que ele não me queria, mas insistia. Eu queria que ele me xingasse e parasse de me responder, assim eu poderia chamá-lo de fdp e seguir com a minha vida, mas isso nunca acontecia. Chamei para conversar, para sair, para fazer uma tatuagem comigo. Chamei só porque estava triste para conversar com qualquer outra pessoa. Ele não foi. Não quis. Não quer. Caso encerrado.

E aí eu sonhei que o irmão dele morria e que o corpo ainda estava na minha cama. Não conseguia matá-lo nem no sonho, apelei para o irmão. Aquele corpo podre, fétido, prostrado em cima da minha cama esperando uma solução. E eu não achava a solução.

Mas o Universo, esse fanfarrão, uma hora encontra um jeito. Depois de um sonho onde ele me dizia que queria uma namorada evangélica (ou seja, o oposto do que eu sou) na beira de um rio, recebi uma mensagem de uma amiga. Ela estava falando do caso dela, mas eu precisava falar mais do que tudo. Alguns áudios depois ela me mandou aquele clássico “Sabe o que eu acho, vou falar do meu ponto de vista..”

E o mundo fez sentido. Chorei. Chorei. Chorei. Nem tinha mais lágrimas. Peguei todas as coisas que eu guardava dele, uma espécie louca de dossiê que eu fiz quando havia decidido “reconquistar”. Peguei uma tigela grande de cobre, sal grosso. Coloquei uma música da Marília Mendonça, “De quem é a culpa?” e troquei todos os versos no presente, pelos do passado. Queimei as páginas. Uma por uma. Fui deixando as lágrimas caírem e sentia como se estivesse no ritual fúnebre dele. A ultima coisa a queimar foi a foto, a única que ficou completamente negra, juntei as cinzas e joguei no vento.

E por dois dias me senti em luto. Como se, de verdade, aquela pessoa tivesse morrido. É incrível como às vezes, tudo o que precisamos é seguir em frente com a nossa vida. Entender que as escolhas não são todas nossas e que o carma, ah o carma, é implacável.

Acredito que meu carma com ele tenha acabado. O amor, esse não morre, mas ele vira uma outra coisa dentro da gente. Foi para uma caixinha, ao lado de outros amores perdidos, onde não incomoda ninguém. Eu sigo, trabalhando, meditando, queimando as dores do passado que às vezes querem aparecer. Não sou a mesma Andrea do começo de 2016, de jeito nenhum. Sou uma mulher completamente diferente e estou honrando isso e deixando de me manter conectada com qualquer coisa que me faça mal. Não porque ele é mal, não é isso. Mas porque amar sem ser amado é uma das piores coisas da vida. Então, para que manter esses vínculos? A liberdade está também em deixar ir.

R.I.P esse amor “me apaixonei pelo que eu inventei de você”

 

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