A carta da morte

O tarô tem uma carta chamada “A morte”. Muda de nome, de jeito, de cara, mas o significado é o mesmo. Ontem, parada num engarrafamento às 10 da noite, voltando da maternidade onde nasceu mais um priminho (Dom, coisa mais linda), fiquei pensando nisso.

Quem nós somos? O que somos agora? Quem nos fomos no passado? Do que somos feitos senão de memórias e sonhos. Tudo o que somos ainda faz parte de nós, mas não existe mais. Estranho. Carregamos pedaços nossos que foram ficando pelo caminho, mas nunca de fato acabam. É como a morte, sempre inacabada.

Quando alguém nasce, morre uma menina virgem até então. Passa de virgem, para mãe, assim como na carta da Lua. Hécate, a Deus da morte e do renascimento. Quando eu olho para a minha sobrinha, com seis anos de idade, não vejo mais a bebezinha que ela foi. Apesar dela estar lá.

Achamos que as nossas mortes são definitivas, mas isso é um engano. O peixe morre para dar lugar a uma refeição. Bem ou mal, ele continua existindo enquanto peixe. Depois ele vira uma parte nossa. Comemos o peixe, a energia que ele nos fornece. Então somos um pouco peixes, aves, mamíferos e alfaces.

Então o que realmente morreu? A forma peixe? A forma bebezinha da minha sobrinha ou a forma feto do Dom? O que morre não somos nós, mas as mudanças dos nossos pedaços. Morremos, viramos pó ou cinza, mas deixamos coisas. Deixamos filhos, deixamos sobrinhos, deixamos experimentos. Deixamos palavras, deixamos lixo, deixamos mudanças. A morte simplesmente não existe e mesmo assim olhamos para ela com tanto pavor. Olhar para a mudança com tanto pavor.

A criança que eu fui ainda habita em mim. Ela pode ter outra forma, mas ela existe. Se eu me concentrar e me lembrar claramente, ou por hipnose, de um momento meu da infância, ele virá inteiro. Ele virá como se nada fosse. Eu fui uma menina, uma adolescente. Eu fui e sou todo o bem e todo o mal em mim.

Não morremos, mudamos. Não estou aqui usando o chavão e nem justificando nada. Choraremos por nossos entes queridos. Choramos pelos nossos pedaços abandonados. Sofremos pelos amores perdidos. Doem as amizades findas ou os objetos perdidos. O que precisamos é só aceitar essa dor.

É a dor da mudança que dói, não a dor do fim.

A morte não existe. O fim é uma parte de um todo. Não soframos por ele mais do que o estritamente necessário.

Temos a maior certeza de que se mostramos a alguém o quanto o amamos, não importa como ele nos trate, ele mudará. O que realmente estamos lhes mostrando é que, para ele, mais seguro é se manter o mesmo.

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