Começar? Agora?

Sinto que sai de uma bolha. Apertada e fria, na qual eu morei por anos. Lá não batia o sol. Lá não existiam escolhas. Até tinham algumas, mas elas sempre voltavam para um ponto inicial que eu não queria. Elas tinham uma vida própria, que eu não controlava.

Mas um dia, depois de muito me debater, por dias, meses, anos, ela estourou. Ela não existe mais. Não estou mais presa a nada, emocionalmente, como eu me sentia antes. Ainda tenho momento de falta de lucidez, mas são pontos, não mais linhas ou cadernos inteiros. Agora estou aqui parada, aos 41 anos, pensando: o que diabos eu realmente quero da minha vida.

Pela primeira vez, de verdade, tenho escolhas. Isso é lindo, assustador. Me faz chorar de amor, de frio, de luto. Me faz me sentir como se tivesse nascido de novo. Outro parto, desta vez uma cesariana. Não mais correria para o hospital. Não mais naturalidade, espontaneidade, a espontaneidade presa de uma co-dependente. Ela ainda existe, habitam em mim como um inseto. Não é mais um dinossauro.

Depois que ela saiu do armário e pude vê-la, é como se eu tivesse enxergado pela primeira vez. Toda a cegueira foi retirada. Todos os momentos de dor foram devidamente justificados. Tudo fez sentido de uma maneira como nunca fez antes. Eu sei o que essas pessoas passam. Eu sei o que eu passei. E a despeito de todas as coisas ruins que aconteceram na droga da minha vida – sim, ainda sinto uma certa raiva disso – filhos da puta, eu sobrevivi. Eu estou aqui, viva, caralho e ninguém pode tirar essa merda de mim.

Eu tive muita ajuda. Mas tive mais coisas me atrapalhando. Eu fui mais forte. Eu sou mais forte. E com essa consciência eu sei, eu sinto que posso ser e ter o que eu quiser. Ainda que tenha 41 anos. Ainda que tenha que solucionar muitas das sequelas das coisas que vivi.

Sou sequelada. Ainda. Sou perfeita, alegre e forte. Tenho um poder imenso que não aparecia nela, a tal da bolha. A bolha criada e mantida pelo Diabo. Pelos meus demônios internos.

Sobrou a obesidade e a solidão. Faltam pagar as dívidas – reais e virtuais – disso tudo. Falta mais metade da minha vida que eu posso viver como bem entender. Tendo um filho, talvez? Um casamento dos sonhos – dos sonhos que me foram arrancados um a um. Uma casa nas montanhas? Uma estadia no Canadá? Um curso de pós-graduação?

Já tem blog e livro – ainda no forno. Já tem canal no Youtube, aulas de dança, apartamento decorado, gata sem botas. Já tem pão de queijo, beleza estética e interna. Já tem seguidores, comentários, coisas exatas e nem tanto. Já tem até haters e críticas. Agora tem mais eu do que nunca. Mesmo aqui, parada na frente de um monte de caminhos, aos 41 anos.

Não vim para esse mundo a passeio. Não vi nenhum passeio, ainda. Ainda acredito neles, ainda mantenho a minha fé. As coisas são tão mais fáceis agora.

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