Por que eu odeio as mulheres magras?

Estava eu fazendo a minha mudança de escritório quando me dou conta de bits e bits do meu primeiro blog, o MiniSaia, em 2004. E resolvi dar uma olhada no que tem lá e achei esse texto. Ou seja, a minha briga pela autoestima e pela autoaceitação, que só aconteceu 15 anos depois, existe desde sempre. Desde os 5 anos na realidade, de acordo com o texto. Leiam e vejam

P.S Também descobri que esse meu jeito de escrever era mais legal!

“Tenho muitas e muitas razões pra odiar, de ódio mesmo, as mulheres magras. E nem precisam ser tão magras assim, basta que sejam mais magras do que eu, já está bom. Mulheres magras são a razão da violência, do ódio e do preconceito do mundo desde os meus cinco anos, quando aprendi que havia diferença – uma grande – entre as mulheres. Descobri que existiam dois tipos: as MM, mulheres magras e as MG, mulheres gordas (que tem G até no nome).

Tudo começou na cadeira da cozinha da casa da minha avó, gorda, que Deus a tenha. Eu, recém saída de uma temporada de três dias num hospital por anemia. Minha mãe magra e jovem,  com uma criança sentada na frente dela, e um maldito prato de couve manteiga refogada. E um garfo. Via e sentia aquele garfo, lotado de coisas verdes horríveis, entrar pela minha boca e descer pela minha garganta, quase como um estupro. E depois de alguns minutos, via o verde voltando pela cozinha afora. E minha mãe, puta de vida, com 12 mil coisas ainda pra fazer me dizendo “Você só come porcaria. Vai virar uma gorda!”.

60419-gisele-bundchen-na-spfw-desfilando-620x0-2Acho que foi a primeira vez que escutei, de fato, esse termo. E a primeira vez  que entendi que “couve manteiga” e “ser gorda” estavam no mesmo patamar de importância para minha mãe. Só não tinha entendido, ainda, como era aquela confusão. Passei os dias me perguntando o que diabos ela queria dizer com aquilo. Comecei a usar minha pequena cabeça de criança e estabelecer teorias riquíssimas. Entendi tudo depois de uma semana: gorda era ruim (pela cara que ela me fez); couve-manteiga era ruim (pela cara que eu fiz) mas, mesmo assim,  um era inimigo do outro.

Claro que vocês sabem como terminou a história: eu gorda e odiando couve-manteiga! E claro, também, que entre os meus 27 anos e os meus cinco muitas coisas aconteceram. Muitos outros vegetais e legumes desceram e subiram pela minha garganta. Muito “homem não gosta de mulher gorda” e “você está parecendo um bujão” entraram e sairam pelos meus ouvidos. Mas, tudo bem, aqui estou eu cinco anos de terapia depois, totalmente reestruturada. Odiando couve-manteiga e gorda.

Então, o que tirar dessa história toda? Que a culpa não é nossa, as MG. Nós não gostamos de couve-manteiga desde o primeiro dia em que a pusemos na boca e nada, nem cinco anos de terapia, poderiam mudar esse fato. E as MM, geralmente, gostam de couve-manteiga e toda sorte de coisas naturais e nada engordativas que abominamos. Então, depois de 22 anos, ainda me pergunto: porque ser gorda é ruim? Olhem só, uma pergunta feita há tanto tempo e eu nunca encontrei a resposta. Encontrei, isso sim, preconceito. Algumas MG’s dizem nunca terem sofrido preconceito. Sinceramente são burras ou surdas.

Quando eu tinha mais ou menos 14 anos só pensava, claro, em meninos. E um desses meninos, pelo qual eu nem era interessada, passava por mim, todos os dias no prédio e dizia: “você é a menina mais feia do prédio e mais feia do quarteirão, sua gorda”. Não me lembro de quantas vezes eu ouvi isso, mas quando fui chorar pra minha mãe, na primeira vez que isso aconteceu, ela disse algo como “eu não disse…você tem que emagrecer filhinha, senão nunca vai arrumar namorado”. Ops, mais um problema. Além de ser gorda e não gostar de couve-manteiga eu teria mais um defeito dali pra frente: não conseguiria um namorado.

E, a maldita profecia estava quase certa mais uma vez: gorda, couve e sem namorado. Mas, eis que um dia eu entro pelo consultório da terapeuta reclamando de não ter um namorado e, olha o que ela diz “Ninguém fica sem namorado porque é gorda, ou baixa, verde ou feia. Você só fica sem namorado porque não quer”.Não é que acreditei nela!? Que coisa…Parecia mais lógico do que não ter namorado porque um babaca, que na verdade achava que eu o tinha esnobado, me chamava de gorda aos 14 anos. Ou porque eu não quis engolir…vocês sabem, a couve-manteiga.

Ah…sei lá..essa história está perdendo o rumo. O que eu queria dizer mesmo, que odiava mulheres magras…isso, era essa a teoria. Porque cada vez que vejo uma maldita magra na frente, me lembro de todas, todas essas coisas. Vejo os homens dizendo que sou a mulher mais feia do quarteirão e que se eu não comer couve manteiga eu vou ficar sem namorado…e que avós são gordas e velhas, mulheres são jovens e magras e tudo isso fica rodando feito um carrossel de horrores e tudo o que eu quero fazer é desaparecer e voltar pro colo da minha avó, que foi a única pessoa nessa história que nunca me magoou. E era gorda. E é a única que ainda me conforta, mesmo tendo morrido quando eu tinha os mesmos 14 anos. Quando eu precisava ouvir que eu só não namoraria se não quisesse e que aquela história que ser gorda é feio e ruim, era mentira. Era só pra eu comer a couve e não voltar mais pro hospital. Porque minha mãe e minha avó estavam preocupadas comigo. E eu, com cinco anos e sem entender nada…já odiando as mulheres magras.”

 

 

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