Fazer as pazes com a comida – primeira parte

Eu amo a Netflix. Ela é a realização de todos os meus sonhos. Um milhão de horas de documentários e séries, que te levam para lugares distantes, como a Malásia ou Bogotá ou França. É a melhor invenção humana depois da roda.

E sempre ouvi muito falar da série de documentários “Chef´s Table”. Eu não sabia do que exatamente se tratava, e depois de tentar assistir uma novela espanhola muito da chata por longos dez minutos, decidi dar uma chance.

É maravilhoso. Fala da vida de pessoas que escolheram a cozinha e essa escolha é, na maioria das vezes, absolutamente emocional. Niguém vira um chef três estrelas Michelan se não tiver um coração forte batendo dentro do peito e uma história de vida para contar. A cozinha, a culinária, principalmente falando de grandes restaurantes é avassaladora. Ela espreme a pessoa até o seu miolo. Eu fiquei completamente apaixonada.

Comecei a pensar em mim, na comida. Numa frase que ouvi na mesma tarde que dizia que “se você não consegue emagrecer, não consegue fazer mais nada da vida”. Em como eu subi e desci de peso ao longo da minha vida e da minha história. Em como isso sempre foi tão díficil. E no meu prazer de cozinhar que, já existiu, mas que está bastante abandonado.

Quando eu era criança praticamente morava na casa da minha avó. Ela era uma senhora grande, portuguesa, com ralos cabelos pretos. Ela não andava. Andava muito mal. Se arrastava pela casa cheia de dores e doenças desde que eu me conhecia por gente.

Eu a ajudava. A andar, pegar coisas para ela, mudar o canal da TV antes da era do controle remoto. Mas fazíamos mais do que só tarefas domésticas ou vê-la se arrastar com um garrafão cheio de água e um saco plástico cheio de remédios. Nós cozinhávamos.

Não só cozinhávamos. Mas lavávamos alfaces frescas, cortavamos tomates. Colhiamos no pequeno jardim com pretensões de horta que ficava no fim de um longo corredor da casa, que ela andava a passos curtos e dificeis. Colhiamos morangos, couve troncha, além do chá de capim santo. O cheiro, a textura e até as formigas que andavam por cima de tudo me fascinavam. Levavamos tudo para dentro e lavavamos na pia de louça branca, enquanto uma última fresta de sol iluminava o filtro de barro. O cheio da terra, dos legumes, a acidez da fruta. Eu adorava aquilo.

No final da tarde meu avô chegava. Ele preparava café num coador de pano e cortava em fatias finas a bengala de pão francês que ainda se encontrava em qualquer padaria. Eu enchia a fatia de manteiga, tomava um golão de café com muito açúcar e sem leite – eu sempre odiei a nata do leite B de saquinho – e comia um pedaço de pão. Ele voltava ao trabalho e minha avó ia cozinhar.

Depois de certa idade ela resolveu me ensinar algumas coisas. Lembro que eu amava tomar o vinho “sangue de boi” direto do garrafão em cima da bancada do corredor. Ali sempre tinha um pedaço de queijo e, o que mais amava, era a gemada da minha avó. Ela quebrava dois ou três ovos e guardava a clara – nada recomendado – na geladeira. Depois batia com um garfo bem rápido, os dedos tortos de reumatismo, até elas mudarem de cor. Ah, isso junto com uma boa dose de açúcar, claro. Misturava um pouco de vinho – só um pouco não faz mal, dizia com sotaque português – e eu comia feliz e saltitante. Era carinho e amor num copo de vidro americano com uma colher de prata.

Minha avó era o amor em pessoa. Ela era so amor e dor. Potencialmente uma depressiva não diagnósticada, mas amorosa como ela só. Ela me dava dinheiro para comprar chocolates, porque ela sabia que eu amava. Era um ritual. Me entregava as chaves da casa e o dinheiro para uma barra das grandes, que eu comprava nas Lojas Americanas, no mesmo quarteirão da casa dela. Me orientava a não falar com ninguém, conferir o troco e não parar para nada. Eu ia feliz e escondida dos meus pais. Voltava com a barrona, ela pegavao troco e me dava um beijo na testa. “Fechastes bem o purtão?” – sim vô, eu respondia sem vontade. E sentava na frente da TV, barra de chocolate em punho, para a sessão da tarde com ela cochilando sentada na poltrona bege.

Uma vez ela resolveu fazer batatas fritas. No tempo em que você não comprava isso em saquinhos congelados. Pegamos um monte de batatas, lavamos e ela foi descascando. Não me deixou mexer na faca, apesar de eu estar morta de vontade de descansar as benditas. Cortou tudo em palitos bem finos. Lavou na pia – atentem que ela fazia isso tudo sem conseguir andar direito, então era bem lento – e colocou o óleo numa panela com o fundo preto pela velhice. Secou os palitos num pano de prato e, quando o óleo estava bem quente, pediu que eu me sentasse na mesa, longe do fogão de quatro bocas azul, aqueles que tinham uma asinha do lado. Jogou as batatas lá dentro e, quando ela fez isso, o fogo subiu tão alto que chamuscou o teto da cozinha. Eu sai correndo, apavorada, e só ouvi ela gritando e rindo perto do fogão “Andrea, venha cá Andrea, me ajudes com isso”. Fui pé ante pé e a encontrei às gargalhadas mexendo as batatas enquanto eu pedia pelo amor de Deus que ela apagasse o fogo.

Aos 11 anos eu não estava morando perto dela. Nos mudamos para uma cidade do interior e eu não passava mais as tardes lá – e isso me angustia só de pensar e escrever aqui. Comecei a ter desejos por comida fast food, que acabam de chegar ao Brasil, via Bobs e Mc Donalds e mais os salgadinhos e iogurtes baratos que vendiam no mercado. Comecei a engordar – na realidade hoje eu sei que foi uma engorda normal da idade, pré menstruação – e passar por todos os processos de bullying possíveis e imagináveis. Eu queria comer, experimentar o mundo. Voltar para a casa da minha avó e preparar batatas fritas no fogão. Mas agora eu tinha um problema, sério, eu estava ficando gorda. E isso era, como algumas pessoas ainda acreditam, pior do que  morte.

A minha saudável relação com a comida começou a mudar justamente aí. Eu adorava açucar e chocolate e não podia mais comer com a dieta restritiva que um dito médico me passou. Passei a comer escondido, principalmente porque a minha mãe escondia doces e biscoitos de mim, que tinha uma fome de leão. Dali para frente as coisas começaram a ficar bem feias.

(continua)

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