Carta aberta ao doutor endocrinologista

Esse meu texto é fevereiro de 2016, quando procurei um médico achando que teria uma ajuda. No final, foi isso que aconteceu.

Publicado no STUM 

Entrei no consultório ontem, depois das 18h30, e ouvi o Dr falando ao telefone. O senhor orientava alguém de um hospital, pelo que eu entendi alguém hospitalizado e que estava precisando de cuidados. Desligou o telefone e me pediu desculpas pelo atraso. E depois falou “A medicina está falida” (SIC).

Foram palavras suas. E uma coisa que eu aprendi na faculdade de psicologia (ah é, eu sou psicóloga, sei que isso não lhe interessa, mas sou), é a ouvir a primeira fala das pessoas. Elas sempre dizem algo sobre a impressão que elas têm do mundo. O Dr abriu a minha ficha, deu uma olhada rápida. Não me olhou nos olhos e nem em parte nenhuma de mim. Talvez só pelo aperto de mão automatizado, talvez. Pegou a minha “bioimpedância”, olhou atentamente para o papel. E começou a falar.

A partir daí, já não era eu. Era uma paciente, com o mesmo nome, peso e altura que eu. Uma criatura fictícia que estava dentro de um papel notadamente equivocado. Uma curva que não me pertence. Uma pessoa que eu nem sou.

Sou grande, estrutura GG com orgulho. As outras bioimpedâncias que eu já fiz na vida, com profissionais sérios e estudiosos do assunto, me colocam na curva dos homens. Tenho estrutura de homem, peso de homem, ossos de homem. Até a barriga de chope que insiste em crescer é uma característica notadamente masculina. Não sou um caminhoneiro, mas o meu tamanho é completamente fora do padrão feminino. Sou grande, não uso pulseiras porque elas não fecham no pulso. Nunca pude usar uma tornozeleira (sucesso nos anos 90 que carrego como frustração até hoje). Sou mais alta que quase todas as pessoas que eu conheço e sou descendente de russos e sérvios. Dá para entender agora?

Ah é, mas isso não lhe interessa. Interessam os gráficos à sua frente. Dizer que eu tenho 50% do meu peso em gordura. Dizer que eu “preciso começar a levar a sério, fazer pelo menos 15 minutos de caminhada por dia, já que você não vai conseguir aguentar mais mesmo”. Eu. Que faço academia 5x por semana no último ano. Que danço jazz e até me apresentei no final do ano passado. Que faço musculação, abdominais, hidroginástica e o que mais aparecer. Eu que melhorei notadamente no exame de teste ergométrico. Estamos falando da mesma pessoa?

Ah, mas isso não interessa, vamos voltar aos gráficos. “Você sempre teve peso alto, muito alto”. Sempre? A última bio que fiz com o Dr (e que minha intuição me disse para nem ir ver os resultados) foi em setembro. Está me comparando comigo mesma, alguns meses atrás e dizendo que sempre? “Olha isso, que horror” (SIC). Oi, eu ainda estou aqui, é de mim que estamos falando, ok?

Eu permaneci muda. Abobada. Fico assim quando entro em choque. O mesmo Dr que estava dizendo que a medicina está falida, nem olhou para mim? Não me viu? Não percebeu que tinha, talvez, alguma coisa que não estava batendo? “Você é caso de bariátrica, menina. É muito nova para ter tudo isso de peso”. Ah, quando eu envelhecer eu posso pesar mais? É isso? Alguma coisa gritava dentro de mim “Pelo amor de Deus me olha”. Mas não tinha resposta. Não ressoava. Eu estava em choque, estava sendo ferida, estava me sentindo um número e não um ser humano. Eu não era nada, eu nem ali estava. Ele estava falando de outra pessoa.

“Você vai fazer uma dieta de 1300 calorias e, com muita sorte, consegue perder uns 2 quilos no mês. Mas não desanime, o importante é ir para baixo”. (SIC). Dr, se eu fizer isso eu sumo em 20 dias. Sem uma gota de sangue no rosto. Eu estou comigo há quase 40 anos, eu sei do que eu estou falando. Mas não interessa. Não interessou nenhuma informação sobre mim. Não interessou meu histórico, minha genética. Não interessou o meu emocional, não interessou o fato de eu ter perdido 18 quilos no último ano. Isso tudo não é nada, o que interessa é o gráfico. Um ataque claro a uma mulher gorda. É mulher. É gorda. Pode tudo.

Dr, eu não sou vagabunda. Eu não sou feia e nem doente. Eu não tenho problemas emocionais ou sou obesa mórbida. Eu quero um corpo mais bonito e mais saudável e estava lá, sentada na sua frente, depois de 30 minutos de espera, depois de fazer uma batelada de exames, depois de um monte de perrengues porque achei que poderia confiar. Achei que, por ser médico, iria olhar para mim. Iria me ver, me enxergar. Não como uma coitada que precisa de ajuda, mas como uma pessoa que busca estar bem. Estar saudável e feliz. Eu não sou isso aí que você me disse, não estou nesse espaço que o Dr me colocou. E só me arrependo de, na hora mesmo, não ter dito tudo isso bem na sua cara.

Agora preciso escrever para me livrar do mal que o Dr jogou em mim. Isso porque é comigo. Alguém que para e pensa. Alguém que se analisa metodicamente, alguém se conhece muito bem. Imagino a senhora gordinha que entrou depois de mim. Imagino a adolescente que vai hoje ao seu consultório. As suas palavras ferem. Não porque você quer “nos abrir os olhos”, mas porque os seus próprios estão fechados. Cheios de preconceito, orgulho, satisfação e negócios. Vendo cifras ao invés de seres humanos. E essa carta serve para o Dr e para vários doutores que já passaram pela minha vida. Aquele que me deu remédio para emagrecer aos 12 anos de idade. Aquele que disse que meus peitos ficariam tão grandes que criariam alergias no meio deles se eu continuasse a comer. Aquele que disse que minha expectativa de vida não seria nem 40 anos. E todos os outros que se acham numa posição de um poder fictício e notadamente nojento.

Eu sou uma pessoa que escuta. E se você me dissesse alguma coisa que fizesse sentido, sinceramente, eu estaria feliz de ouvir “umas verdades”. Mas o que acontece é que hoje eu estou mal. Eu estou triste, chateada. Eu não estou animada e feliz em continuar a minha dieta e os meus exercícios. Eu não estou motivada. Ao final da consulta, não sei se o Dr se lembra, depois do meu longo e doloroso silêncio, o Dr resolveu me dar uma batida de mãos (aquelas que os adolescentes fazem) e, enquanto continuava a olhar para o papel me disse “Força”, com um sorrisinho no canto da boca. Aquela força de “Eu sei que você não vai fazer nada, vai sair daqui e tomar sorvete”.

Sim, Dr, a medicina está falida. Para dizer o mínimo. O poder dado aos Drs é absurdo. A verdade está em gráficos e exames, e não nas pessoas em si. Se cada ser humano é um universo, como tratar todos igual? Como colocar todo mundo em um balaio de gatos e fingir que nada está acontecendo? Como não acolher quem está procurando ajuda? Isso não existe Dr. Isso é maldade. Isso é sacanagem, das grossas. Isso é crueldade.

Eu vou melhorar. Vou acordar amanhã e voltar para a academia. Vou tomar meus medicamentos, vou fazer a minha dieta funcionar. Vou continuar com o estilo de vida que eu já mudei, para o seu governo. O Dr vai continuar acabando com as pessoas. As pessoas que serão atraídas para o seu consultório como moscas. Loucas para fazerem parte da maioria, do certo. Loucas para serem emagrecidas por algum milagre tecnológico. Eu não sou dessas. E não sou obrigada. Não agradeço porque o Dr não me fez bem. E eu não agradeço à falta de bem. Mas acho que é importante falar isso para a tal senhora e a tal adolescente lá na sala de espera: ele não é Deus. Ele não sabe a sua verdade. Ele não merece que você fique mal porque ele acha que você é uma obesa mórbida. Você só precisa de você mesma. Você só precisa da sua “FORÇA”. Devolva para o Dr o que ele tirou de você. Pegue a sua força de volta. Ela é sua, ele não é ninguém. Só um homem triste que quer fazer triste as outras pessoas.

Tristeza do Jeca.

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