Você é o que foi feita para ser

Sempre me cobrei muito. De todas as formas possíveis. De não ter chegado lá, de não conseguir perder peso, de não ganhar o suficiente para uma viagem para a Tailândia e daí por diante.

Em 2012 eu estava no auge da minha carreira de psicóloga. Meu consultório estava cheio, mal tinha horários disponíveis. Eu comia mal e quando dava, tinha engordado e não pisava em uma academia a séculos. O dinheiro, que eu ganhava muito, usava para comprar. Comprava roupas que não usava porque não tinha para onde ir. Comprava bolsas de festas para as quais não era convidada. Enfim, gastava só porque eu tinha e porque “eu trabalho tanto, mereco”.

O meu senso de “responsabilidade” me deixava louca. Uma vez, esqueci a faxineira na porta do consultório. Marquei de chegar mais cedo para ela limpar e esqueci. Ela, que não tinha celular, esperou quase uma hora e depois foi embora. Quando descobri isso, desabei. Chorei de nervoso. Eu não poderia errar daquela maneira, que horror!! Eu era um monstro egoísta que deixava as classes menos favorecidas e que precisavam trabalhar na porta. Fui até a casa dela é deixei o dinheiro da faxina que não foi feita. E fiquei sem dormir por dias.

O nosso grande e maior sofrimento não vem das coisas de fora. Não vem dá cobrança dos pais, amigos, namorado. Vem, isso sim, da nossa cobrança interna por perfeição. Eu não estava oprimindo ninguém, estava só exausta demais. E infeliz naquele trabalho.

Não aguentei muito tempo. Algum tempo depois, aproveitando o momento de crise, mudei o consultório. Iria atender menos. E aí entraram as auto-cobranças financeiras. O tanto de coisas que eu tinha comprado para aguentar a infelicidade estavam em faturas de cartão. O que era uma cobrança subjetiva, virou uma cobrança real. Aí comecei uma batalha para recuperar meus clientes e pagar dividas. Tarde demais.

Mesmo depois de tudo isso, demorei muito para entender que tudo bem. Que eu poderia só ser o que eu sou. Que não existia a necessidade de ser uma psicóloga com o consultório cheio, quando isso não significava nada para mim. Para mim, atender como psicóloga era algo que eu faria por um tempo. Mas o que eu sempre quis foi poder falar para mais pessoas. Mostrar para pessoas que passaram, como eu, por muitos problemas na vida, que é possível sobreviver e ter uma vida legal. Eu só não tinha entendido que eu mesma precisava ter a tal vida legal, antes de mais nada.

Essa é a minha causa e o meu trabalho. As mulheres gordas. As mulheres que passaram por abusos de todo tipo. Eu passei por isso e sei que estou cada dia mais próxima de abrir isso para o mundo. Assumir que tudo o que eu passei, no passado, só serviu para forjar a pessoa que eu sou hoje. Aquela que muitos admiram e respeitam. Aquela que precisou visitar o fundo do poço mais de uma vez. Aquela que ainda está, e talvez nunca termine, se curando de feridas profundas.

Não sou nada além disso. Não sou uma alta executiva. Não sou uma guerreira. Não sou forte o tempo todo. Entendi que eu sou só eu e que Deus, em quem acredito e que manja dos paranauê, sabe mais do que eu o que está fazendo. Parei de ir contra ele e isso não quer dizer que me abandonei, pelo contrário. Nunca cuidei tão bem de mim e das pessoas que eu amo. Nunca estive tão feliz. Nunca me senti tão viva como agora. Mesmo sem ganhar rios de dinheiro. Sem ter um milhão de seguidores. Mesmo que, do ponto de vista social, eu não seja “um sucesso”. Sou o meu sucesso e amo isso. E posso chegar muito mais lo longe assim do que sendo o que eu nunca fui. Seguindo na minha verdade. Sempre e sempre.

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