Vivendo e aprendendo a jogar

Pense agora numa grande respirada. Um suspiro profundo que traz o ar para os seus pulmões e tira uma tonelada de lixo. Mágoas, frustrações, medos… todos frutos do desconhecimento de si mesmo.

O si mesmo. Esse grande monstro do Lago Nercy (será que é assim que se escreve?), um buraco cheio de entranhas, espaços escuros, fortalezas guardadas à sete chaves. E eu, ingênua, achando que ser humano só não se encontra porque não quer. Na verdade não é bem assim.

Conhecer-se é uma grande batalha. Pior, é uma grande guerra. Pior, é uma guerra nas estrelas, um grande “Star Wars”, só que por dentro. Temos o Lucas Skywalker, o Darth Vader. Ah, o Darth Vader… para se ter uma ideia eu tenho um tatuado no meu braço e não, não é só porque sou apaixonada pela saga.

dath-vaderO meu Darth lembra das minhas mortes. As que sofri ao longo da vida e lembram da minha batalha interna contra tudo o que me é negativo. Só porque seu Darth não quer dominar um imperío intergalacteo, não quer dizer que ele não existe. E nem quer dizer que ele não faça o mal, para si e para os outros, com a melhor das intenções.

 

Nossos demônios internos. Nossas forças de sombra. Aquelas que nos levam a lugares inimaginalvente insanos. Nossa insanidade, nossas prisões internas. O nosso lado ruim, mal, negro.

sentimento-felicia-capa_0O meu me controlou por anos. Hoje ele não faz mais isso. Ele veio na forma “fofa” de carência, co-dependencia e egoísmo. Pareciam coisas lógicas mas, caramba, não eram! Errei, feio. Comigo e com as pessoas ao meu redor. Deixei de perdoar erros, forçei situações que não deveriam nem existir. Apertei calos e colhi frutos ainda verdes demais. E paguei o preço por cada ação, completamente inconsciente de que diabos eu estava fazendo.

Foi com a melhor das intenções. Foi para o bem. O meu bem. O bem do outro e, de preferencia o nosso. Fui arrogante e paguei o preço. Fui insensível e paguei o preço. Pior, o pior preço sempre foi o meu. Por mais que minhas ações tenham prejudicado pessoas, indiretamente, sem nenhuma intenção, ainda fui eu quem pagou o preço maior.

Hoje eu me retiro da tentativa vã de salvar quem quer que seja. De aconselhar, de ser maior. De ser um ser superior que “sabe” o que está dizendo. Sou uma terapeuta. Alguém que aprendeu e domina técnicas e as usa para que as próprias pessoas se ajudem. Sou como um co-piloto para alguma fase da vida de alguém. Eu não piloto nada, eu não mando a pessoa acelerar ou ir mais devagar. Eu não digo onde tem que parar ou qual caminho deve seguir. Se me perguntar isso, vai ouvir o famoso “faça o que o seu coração mandar” ou uma lista de prós e contras. Mesmo usando essas técnicas manjadas, ainda é melhor do que as coisas que eu fiz, muitas vezes.

Orlando_de_carro

Hoje eu abandono a vítima. Que foi “frustrada” pelo mal do outro. Todo o mal que eu sofri, eu plantei. Não fazendo o mal para o outro, como nos fazem acreditar, mas fazendo o mal para mim mesma. Pressionando a mim mesma a ser uma coisa que eu não era. Forçando os meus próprios limites, emocionais ou profissionais, em muitas situações. Forçando as pessoas a serem o que eu achava que deveriam ser e a fazer as coisas que eu achava que deveriam fazer. Um misto de arrogância, falta de empatia, insensibilidade. Uma falta do outro que se manifestou numa coisa horrível e pesada chamada solidão. Aquela, que sentimos no meio de um monte de gente e, ao mesmo tempo, aquela que sentimos estando mesmo sós.

Só eu mesma sei da minha própria verdade e todos os meus conselhos só servem aos meus próprios problemas. Não sou bruxa, médium, sensitiva. Não tenho bola de cristal. Estudei porque gosto, só isso. Sempre batalhei muito por boas notas, só porque eu curtia mesmo e não queria “mais esse problema”. Aprendi porque sim, tenho uma boa inteligência e uma capacidade superior de entender alguns conceitos abstratos mas, não para entender a alma humana. Ou a mente, que seja. Quem eu pensei que era?

Sei tanto e tão pouco. E descubro tantas coisas sobre mim mesma a cada dia. Um fim de semana pode mudar meu jeito de pensar e a vida de uma vez só. Uma palavra, dita no momento exato em que a minha maturidade responde, pode abrir portas emperradas e me tirar de imensas poças de lama.

Por falar em poça de lama, antes eu era aquela motorista que acelerava mais e mais quando estava dentro da poça. Acelerava até as rodas encherem de água e barro. Acelerava achando que, se eu acelerasse saira mais rápido e sem sequelas. Mas não é assim que as coisas funcionam.

Para você tirar um carro da lama precisa de muitas coisas. De um bom pedaço de madeira, por exemplo. De outro carro que possa te içar mas, o mais importante, de calma, delicadeza e paciência. Para achar a aceleração perfeita, um pouco menor do que o normal.  Aquela que vai fazer a roda começar a girar devagarinho, até que ela consiga sair. Senão, estaremos condenados a morar dentro da poça de lama. A viver eternamente gastando uma energia incrível para ficar no mesmo lugar. Precisando parar as esfriar o motor, mas mesmo assim debaixo da chuva torrencial. Querendo forçar o que não existe.

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Depois? Depois é velocidade de cruzeiro. Boa, mas prestando atenção na estrada. Diminuindo quando tiver um acidente. Parando para um lanche ou um café. Colocando uma música rápida e depois uma mais lenta. Dando carona para as pessoas importantes as levando conosco dentro do carro, como naquele jogo da Estrela, “Jogo da Vida”.  Até a próxima curva? Até a semana que vem? Até o próximo trabalho ou o próximo relacionamento? Sim. Mas atendo aos sons do nosso carro. E ao tempo lá fora. Ao mesmo tempo. Tudo ao mesmo tempo. Agora.

 

 

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