Processo de aceitação – terceira parte

Se quise saber do começo dessa história é só ler o “Processo de aceitação primeira parte” e “Processo de aceitação segunda parte” .

Agora estou com quase 15 anos e entrei numa escola nova. Nunca fui de me apegar a escolas ou residências, mudavámos bastante, mas era o “colegial” e as coisas eram diferentes. No segundo ano me apaixonei pelo Alex.

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Eu era essa “gorda” aos 16 anos

Alex era o segundo carinha mais bonitinho dos colegiais (perdendo para o André). Com esse título, era normal que fosse bastante assediado. Ele me paquerava abertamente. Olhava muito. Mas eu não tinha coragem de dizer que era apaixonada por ele. Achava que eu era feia e “gorda” e jamais aquele deus me olharia. Um dia, uma amiga disse que também gostava dele. Acabou tentando flertar com ele na minha frente, mas a indireta veio pra mim. Eu até entendia o que ele queria dizer, mas algo dentro de mim rejeitava. A minha autorejeição aparecia muito nesses momentos, como se eu fosse só uma idiota apaixonada por alguém que jamais teria.

Um dia, o Alex trocou de lugar na sala com outro menino e passou quase todas as aulas tentando falar comigo. Eu ignorava, fingia que não era comigo. A minha ideia de que ele só estava tirando uma com a minha cara era muito forte. Resisti. Ele desistiu. Alguns dias depois, quando estava saindo da escola, dei de cara com ele beijando a Gisele. O beijo que eu jurava que deveria ser meu. Meu mundo caiu e, claro, comecei uma dieta (mais uma) bem radical. Voltaria magérrima das férias e ele ia ver só o que tinha perdido.

Anos mais tarde acabei encontrando a tal Gisele numa festa. Ela dizia que me odiava no colégio porque o namorado dela, o Alex, não tirava os olhos de mim. E, ainda assim, demorei para acreditar.

Ser gorda na adolescencia dos anos 90 era o pior que você poderia ser. Acho que matar os pais era mais leve. A exclusão era latente. Mas o problema é que eu não era tão gorda quanto eu achava que era. Na minha cabeça, existia um monstro obeso. Eu era gordinha, cheinha em alguns momentos mas, principalmente, era alta e grande. Isso me confundiu por anos, quando eu via que o peso das modelos e das atrizes que apareciam na Boa Forma não passava de 57 quilos. Eram, às vezes, mais altas do que eu e tinham esse peso? Eu era o maior bujão da face da Terra, não tinha dúvidas.

Esse período foi povoado de dietas. Fazia as que via nas revistas. Uma vez comprei todas as sopas da Adriana Galisteu. Quando você comprava o pacote, ganhava um medidor de banha (isso até é usado hoje em dia) e eu andava com o meu para cima e para baixo. Era só sopa, de manhã até a noite. Emagreci horrores.

O pior é que todas essas tentativas do efeito sanfona eram aplaudidos, por mais absurdas que fossem as dietas. Meus pais, tias e tios diziam que eu tinha “força de vontade” e eu achava isso o máximo. Sim, eu sei que sou determinada na minha vida, sempre fui assim, mas usar isso para uma disformia de corpo não poderia ser normal.

Uma vez fiz uma dieta em que só comia arroz integral. Eu gostava de arroz integral mas, ao final de quatro meses disso, meus cabelo começaram a cair vestiginosamente. Eu tenho muito cabelo, mas aquilo me assustou. Por incrível que pareça ninguém pensou que eu estivesse anêmica, gorda e anêmica? Como poderia? Mas foi exatamente isso o que aconteceu. Precisei mudar a alimentação, voltei a engordar e comia mais ainda.

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Magrinha de vigilantes do peso

Aos 18 anos fiz Vigilantes do Peso. Lembro de morrer de rir com as tentativas da orientadora de me fazer gostar mais de salada do que de chocolate. Ela usava uns meios de “hipnose” e fazia a gente repetir que chuchu e pepino tinham sabor de lasanha. Eu emagreci, era muito jovem e com um bom metabolismo ainda. Entrei na faculdade, depois de estudar muito e comer pouco. E comecei o ano de 1995 magra e universitária. Recebi um único trote na faculdade: uma maquiagem de gatinha – do tipo “fico ou não fico” – brincadeira dos meninos. Toda feliz e serelepe, achei que tinha chegado no auge.

 

Na faculdade tudo era muito mais complicado. Comer, trabalhar, e todos os medos e dúvidas que começam a aparecer com a responsabilidade. Eu precisava ganhar dinheiro, ter uma profissão, estudar, manter o corpo, tudo isso sem dinheiro e andando de ônibus. A pressão, e todos os problemas da adolescencia acumulados, acabaram gerando uma sindrome do pânico e, depois, uma depressão bastante severa (em que falo aqui neste post)  . Nessa época eu engordei incríveis 40 quilos em menos de um ano. A compulsão veio forte e apresentei um começo de bulimia e ideias suícidas. Se a minha vida teve uma idade das trevas, com certeza foi nesse tempo.

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O começo da depressão e me achando imensa

Nunca mais pesei o que cheguei a pesar antes da depressão. Foi um período longo e que levou de mim muita coisa. Muitos momentos felizes que a juventude costuma trazer. A depressão não é algo que tomamos um remédio e tudo passa. Ter depressão jovem, ainda te mantem com um fio de esperança. Eu sabia e queria mudar. Achava que a depressão era alimentada pela obesidade e não teve um médico no qual eu entrei nessa época que não culpou a obesidade pela depressão (e nunca o contrário). Ninguém nunca me disse para tratar a depressão e depois emagrecer. Achavam – me induzindo ao erro – que seria feliz quando fosse magra.

Esse pensamento era recorrente, inclusive no meio médico. Cansei de ouvir isso até de um oftamologista. Não podia ter uma gripe que a culpa era da obesidade. Era chamada de gorda por todo mundo. Cheguei a ser chamada de gorda no estacionamento de um supermercado por um homem de quem eu, supostamente, roubei a vaga. Os momentos de solidão e dor eram terríveis. A cada “outubro” começava o inferno das revistas e das dietas da moda. Agora vai, pensava. Comecei a participar, todos os anos, dos desafios de verão da revista Boa Forma que premiava, com uma viagem, que conseguisse chegar no “corpo de verão”. Tudo estava ali. Tudo era normal. Eu era a aberração.

No próximo post conto como comecei a sair disso tudo e como cheguei na consciencia de mim mesma que eu tenho hoje.

Continua.

 

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