Querido Danilo Gentili

Não, você não merece. Não merecia nem um pingo de atenção e, eu sei, isso te deixa doido. E sei que deve estar bem feliz, sentado de cuecas no seu apartamento confortável, com algum dinheiro no banco e pensando que pode acabar a qualquer momento. Desesperado por se manter na mídia, por fazer “piadas boas” e chegar aos trend topics. Eu te entendo. Juro.

Sabe por que eu entendo? Porque eu vim agraciada com o dom da empatia. Sabe o que é? É quando um ser humano entende o sofrimento do outro ser humano. Sim, eu sei que parece um conceito um tanto vago para você – sugiro uma boa pesquisa no Google para saber mais – mas acredite, é real. Existe. A ciência, além de comprovar, ainda endossou dizendo que é uma qualidade que faz muito bem aos seres humanos. Em geral. Incluindo você.

Não gosto do seu trabalho. Sei lá, coisa pessoal talvez. Entendo que algumas pessoas gostem e algumas pagam para você fazer isso. Mas os nazistas também eram pagos para fazer o trabalho deles. Os médicos que arrancaram úteros de mulheres judias também. Enfim, cada um com o seu, não é mesmo? E você deve mesmo estar me achando exagerada, comparando você a essas “pessoas execráveis” mas vou explicar o porquê disso.

Eu fui gorda desde os 11 anos. E sofri muito por isso. Fui humilhada, xingada, deixada de lado, corrompida, tocada, sofri assédio sexual, moral, físico e mais um montão de coisas porque nasci assim: grande e mulher. Sim, eu sei, você é um macho-adulto-branco-dominante e é mesmo complicado de entender, mas tente se colocar no meu lugar só um pouquinho. Aos 21 tive depressão porque me odiava. E tentei me matar, por conta do meu corpo, três vezes.

Mas, graças a Deus, não consegui. E não foi porque eu sou “fraca”, mas porque eu sofria mesmo, muito. A dor era dilacerante. Eu superei, graças a Deus, e a pessoas como a @alexandrismos que decidiram que ser gorda é só uma coisa que se é, como ser macho-adulto-branco, por exemplo. Eu penei, mas superei tudo isso.

Mas eu trouxe para você alguns outros casos. De meninas, de 11 e 13 anos que não superaram. Elas se mataram por conta da aparência. Umas delas, uma neozeolandesa, disse que meninas boazinhas “não podem comer”. Ela tirou a própria vida deixando uma família e um pais devastados e pensativos.

Todos os dias, milhares de consultas ao Google – aquele mesmo que eu falei para você pesquisar empatia, lembra –  são feitas para o termo “ana”, que é o apelido fofo para anorexia, um distúrbio alimentar que mata milhares de meninas e mulheres todos os anos. As meninas acham que, se forem anoréxicas, poderão ser melhores aceitas pelo mundo. Algumas conseguem só vomitar mesmo, depois de atacar a geladeira – que nem você atacou o peru de natal e comeu mais que a Ale (que engraçado  #sqn) – o que chamamos em psicologia de “episódio compulsivo”. Ah é, eu esqueci de me apresentar, eu sou formada em psicologia. Atendo mulheres com questões semelhantes a essas há 12 anos.  E tenho certeza de que, apesar de ter atendido muitos casos, eles ainda são só uma pequena, bem pequena mesmo, amostra.

26112300_1991181157796035_1409977141797904477_nPessoas como a Alexandra Gurgel, eu e mais um monte de blogueiras e digital influencers estão tentando evitar isso. Tentamos evitar dor, sofrimento, morte, suicídio e doenças mentais. Somos sim os mocinhos, brigando com um sistema tão enraizado que, muitas vezes, duvidamos de nós mesmas. Um sistema que quase me levou a vida, que me levou a saúde (tenho refluxo por conta de episódios de bulimia na adolescência) e anos da minha juventude. Enquanto você e seus amigos dançavam ao som de Withney Houston em bailinhos nos anos 90, eu e muitas das minhas “amiguinhas gordas” chorávamos em cima de uma pacote de batatas fritas, nos sentindo mal por existirmos.

O pior é que isso – ainda – não mudou. Enquanto eu escrevo isso, mulheres se matam em dietas absurdas, aplicam injeções ou fazem sessões exaustivas de exercícios para não desagradar homens como você. Estou aqui tomando uma grande respiração para dizer que elas não precisam disso. E ninguém anda precisando de pessoas como você.

Você é o vilão hoje. E você sabe como eles terminam né? Solitários, sem graça, vazios. Um dia a fatura das suas palavras bate na sua porta e não sou eu ou nenhuma outra gorda que vai mandar não. Nós estaremos felizes  porque simplesmente aceitamos quem nós somos. Estaremos cercadas de bem estar e de uma coisa chamada autoestima.

Entendo que só fere quem já foi muito ferido e possivelmente esse é o seu caso. Mas sugiro um divã para resolver os seus problemas e não a foto ou as matérias sobre representatividade de outras pessoas. Conforme-se, você nunca vai parar na BBC indo por esse caminho. Mas pode tentar mudar a sua cabeça, fazer uma dieta de autoaceitação e amor próprio e, quem sabe, as coisas mudem para você também. Estaremos aqui torcendo pela sua felicidade. Porque é isso que a gente faz. #gordofobianãoépiada

Link para o vídeo resposta da Alexandra

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