Processo de aceitação – primeira parte

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Bebê de 1 ano e zero problemas

Sim, essa conversa do meu processo de aceitação vai render muitos, muitos posts. É uma história longa e pesada (literalmente) como a maioria das mulheres que passou por processos de se amar e se aceitar. Verdadeiramente.

Digo isso porque fui enganada pelo meu próprio processo muitas vezes. Muitas vezes eu achei que me amava. Achei que se fizesse as unhas todas as semanas, eu estava me amando. Depois eu via que eu só fazia as unhas para que as pessoas não comentassem que, além de gorda, eu ainda era desleixada. Eu tinha uma cliente, inclusive, que se mirava na cor das minhas unhas. Ela via a cor da semana e pintava igual. E eu achando que, se mantivesse esse hábito minimamente saudável, eu estava me amando.

Ou seja, foram muitos enganos. Agora estava eu aqui navegando pela web quando me deparei com um post no Facebook – A Simpatia da Cebola. Na hora me lembrei da primeira simpatia que eu fiz para emagrecer: justamente a simpatia da cebola.

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Aos 10 anos

Eu tinha 11 anos quando comecei a ganhar corpo. Eu não fui uma criança gordinha, apesar de sempre ser viciada em chocolate. Gostava de correr, de dançar, não parava quieta e não era comilona, só de doces mesmo. Aos 11 anos eu cresci rápido. As pessoas me davam 14, 15 anos. Sou bem alta, sempre fui mais alta que as outras crianças, então fiquei enorme. As minhas amiguinhas ficavam na ponta do pé para falar comigo e eu detestava aquilo.

Aos 11 anos você só quer ser aceita e ser aceita significa ser igual a todo mundo. Um dia, na praia, quando entrei no carro dos pais de um amiguinho para irmos tomar um sorvete ele soltou “a Andrea vai de um lado e todo mundo do outro, assim equilibra”, falando sobre os lugares no banco de trás do carro.

Minha mãe começou um doloroso e longo processo de bullying. Meu pai era gordo e ela não queria que eu “ficasse igual a ele”. Começou a cortar tudo : doces, pães, macarrão e me entupir de água e legumes, coisas que eu sempre detestei. Eu mesma comecei a achar que tinha algo muito, muito errado comigo. Foi aí que, lendo uma destas revistinhas de banca, encontrei a tal simpatia.

TIPOS DE CEBOLAVocê pegava uma cebola, e espetava cravos nelas. Precisava espetar a quantidade de quilos que queria perder em cravos e depois enterrar a cebola. Apesar de eu não ter ideia do que estava fazendo e achar que tinha que pesar o mesmo que as minhas amiguinhas, eu decidi que precisava perder 11 quilos (hoje eu vejo o absurdo que é isso). Peguei a cebola e reservei um dia para esse “ritual”. Minha irmã foi junto comigo a um terreno baldio, onde enterrei a cebola e a minha dignidade. Dali para frente a coisa só pioraria.

Vendo o meu desespero e ajudando muito, minha mãe me levou a um médico endocrinologista (se é que alguém que faz o que ele fez pode ser chamado de médico).  Ele me examinou e falou que os 11 quilos que eu queria perder estavam realmente adequados, era isso e que se depois eu achasse que tinha que emagrecer mais, era só falar com ele. Me falou que, se eu não emagrecesse, meus peitos cresceriam tanto, mas tanto que iriam criar cracas no meio deles, iam encher de alergias horríveis que iam doer e cheirar mal. Ele queria me assustar. E conseguiu.

Passou uma bomba que ele chamou de “medicamentos” e uma dieta super restritiva. Não existia refrigerante diet, não existia nada sem açúcar ou gordura então, basicamente, eu não podia comer nada. No café da manha eram 2 torradas com nada. Café preto para uma criança de 11 anos. Logo eu estava magra, com oito quilos a menos, e recebendo milhões de elogios.

Fiquei realmente feliz. Aí sim, eu tinha quase o peso das pessoas normais e as pessoas me incentivavam. Minha mãe cuidava da minha dieta como ela nunca cuidava de mim, então achei que aquilo tudo era bem legal. Cheguei na praia pra esfregar isso na cara do tal coleguinha do carro e decidi fazer uma caminhada na praia, de blusa e shorts justos e brancos.

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Aos 6 anos no passeio da escola. Eu já gostava de ser fashion e pousar pra foto.

De repente a minha vista ficou turva. Depois escureceu. Eu comecei a gritar e a rodar em desespero e isso é tudo o que me lembro. Depois de uns meses eu retomei a memória do que tinha acontecido naquele dia: disrritimia cerebral dupla causada pelos medicamentos e pela dieta restrita demais para a minha idade.  Eu tive um ataque epilético e cheguei ao hospital com o pulso quase zero. Não sabem como eu não morri.

Lembro do desespero da minha avó quando voltei pra casa, chorando e gritando. Lembro da vizinha maluca dizendo que eu desmaiei por “excesso de inteligência” (sim, ela usou essa palavras). E lembro de ser proibida de tomar os remédios que me tiravam a fome.

Voltei a comer. Passei por um tratamento de 2 anos a base de Tegretol e sessões regulares de exames neurológicos. Os quilos voltara, ainda mais cruéis. E a briga começou. E vou parar por aqui, por enquanto, porque é muito conteúdo. No próximo post explico como foram os anos seguintes da minha vida e como cheguei ao fundo do poço.

Continua…

3 comentários sobre “Processo de aceitação – primeira parte

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